Domingo, nada
Estou farto que o céu seja azul. Podia ser de tantas outras cores. Porquê azul?
É costume que o domingo seja o dia da semana em que o bom se torna no mau e o mau no péssimo. Este, por sinal, não fugiu à regra. É aquele dia onde ninguém faz nada, porque sim. Gera-se toda uma atmosfera de tédio e fare niente que contagia todas as almas penadas. Eu resolvi ir fazer nada para nenhures também, na tentativa de fazer algo algures noutro sítio que não este. Não podia permanecer entregue a mim próprio, quando na noite anterior a minha imaginação me voltou a trair de forma vil e implacável.
Toda a baixa lisboeta se vestia de inactividade. Todos os transeuntes com quem me cruzei desfrutavam da tal atmosfera de domingo. Passadas vagarosas e quase que automatizadas. Conversas vagas, das quais, sem querer, apanhava algumas pontas e conectava ao acaso. Histórias mirabolantes que me passavam pela cabeça a um ritmo tão extremo que as perdia por completo quando estas encontravam os seus termini. Faltava-me claramente aquela presença feminina que costuma ser mais que suficiente para não me deixar enlear nos meus próprios pensamentos.
Ao entrar em modo de bocejo compulsivo, dei por terminada a minha excursão à tarde de domingo dos outros. Não fosse o tempo estar agradável e teria sido um dia perdido. De qualquer forma o seria, mas o receio aperta mais aquando da exposição ao diferente. O único problema de estar bom tempo é o céu estar azul, como sempre. Isso enoja-me. Mais de vinte anos a ser sujeito ao imutável. Não que seja especialmente feio, mas os olhos já vão começando a pedir mudança.
Afinal, onde ficaram mesmo aqueles olhos castanhos-escuros que, mesmo a uma curta distância do solo, reflectiam o tudo? Onde ficou aquela pele morena e delicada que, por si só, bastava para me fazer esquecer que o céu era azul e que o domingo é o culminar do tédio? Perderam-se por entre bocejos, domingos e a refracção do azul por parte da atmosfera.
Tenho saudades tuas.
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